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Como Bispo do Rosario, que passou 50 anos em hospício, mudou arte contemporânea

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O que Arthur Bispo do Rosario fazia em seus mantos, estandartes e objetos era, segundo ele mesmo, uma missão divina. Mas há décadas a leitura dos trabalhos que ele fez dentro de hospícios, onde viveu por 50 de seus 80 anos, é a de que são obras de arte como quaisquer outras, expostas em museus. A condição levanta uma discussão complexa sobre como essas instituições acolhem peças que não foram produzidas tendo suas galerias em vista.

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Curadora e pedagoga no Museu Arthur Bispo do Rosario —sem acento, mesmo, já que era assim que o artista assinava suas obras—, na zona oeste do Rio de Janeiro, Diana Kolker afirma que o que é indiscutível nessa encruzilhada é que a produção do também pugilista de Japaratuba, em Sergipe, influenciou profundamente a arte contemporânea.

Essa é uma das duas principais imbricações da mostra sobre o artista que o Itaú Cultural, em São Paulo, inaugura no dia 18 de maio. A data comemora o Dia Nacional da Luta Antimanicomial e, coincidentemente, o Dia Internacional dos Museus.

Kolker e Ricardo Resende convocaram cerca de 50 nomes que tinham alguma afinidade com o trabalho de Bispo. É o caso de bordados de Leonilson, de investigações têxteis de Rosana Paulino e Sônia Gomes, e das pinturas sobre papel pardo de Maxwell Alexandre, que retomam o universo criado por ele na antiga Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, com toda sorte de tecido e objeto que ali encontrava.

O alcance da obra do sergipano hoje tem a ver com o quanto ele já apareceu em instituições formais de arte —um levantamento feito para a mostra de agora indica que suas peças já estiveram em ao menos 150 exposições pelo mundo.

A exibição de sua obra, no entanto, também é vetor do debate sobre a saúde mental e das bandeiras levantadas pela reforma psiquiátrica, defende a organizadora da mostra. Em alguma medida, isso sustenta o núcleo central da montagem no Itaú Cultural, com mais de 400 peças do próprio artista, que recebeu um diagnóstico de esquizofrenia.

Kolker afirma que a primeira vez que a obra de Bispo foi vista fora do contexto do manicômio foi nos anos 1980, num texto de Samuel Wainer Filho. Escrito já no contexto da luta antimanicomial, ele denunciava o tratamento violento que o Brasil usava contra pacientes psiquiátricos desde o século 19.

Ou seja, Bispo impactou também os rumos da discussão sobre saúde mental no país. "Essa pauta não se esgota e precisa ser posta em cena sobretudo num momento em que tantos estão em situação de fragilidade", diz a curadora.

Para mostrar como era o espaço de produção do artista, o museu reproduziu o ambiente da cela de Bispo, com um ajuntamento quase compulsivo de objetos no espaço. A intenção dele era fazer um grande inventário das criações da humanidade, a ser apresentado a Deus no Juízo Final. A empreitada era guiada por vozes que só ele ouvia.

Bispo fazia isso durante um dos períodos mais terríveis do modelo manicomial no Brasil. Eletrochoque, lobotomia e confinamentos chamados de "bolos", em que várias pessoas eram trancadas e torturadas juntas, faziam parte do cotidiano da Colônia Juliano Moreira.

Mas documentos dão conta do fato de que ele sempre encontrou formas de exercer uma certa autonomia ali, seja ao recusar medicamentos ou ao criar uma rede de escambo para obter os materiais necessários para a confecção das peças.

Bispo, aliás, não é o único artista que viveu esse contexto que é relembrado agora. Tanto ele quanto Aurora Cursino e Judith Scott, que também viveram em centros psiquiátricos, são temas de livros recém-lançados. O Centro Pompidou, em Paris, acaba de receber uma coleção de art brut, um dos muitos termos que hoje se acumulam na definição dessas peças, entre eles visionários, outsider art e o mais antigo naïf, que também envolve obras criadas nesses lugares.

O que parece movimentar esse interesse é justamente o impacto que a pandemia trouxe para a saúde mental, especula Kolker. "É importante olhar para esse lugar fora do estigma da loucura, como algo que é só do outro, que está num lugar de periculosidade", afirma ela.

Solange de Oliveira, pesquisadora e autora de "Arte por Um Fio: Arthur Bispo do Rosario", elenca uma série de outros motivos para esse interesse crescente na produção de artistas como Bispo. Entre eles, o interesse mercadológico por um trabalho que é ao mesmo tempo expressivo e contemplativo. Desde que começou a pesquisar o nicho, há dez anos, esses artistas apareceram cada vez mais nas grandes casas de leilões internacionais, ela afirma.

Acontece que essa mediação do centro psiquiátrico para os museus, na visão dela, muitas vezes apaga a intenção dos próprios sujeitos. Bispo, por exemplo, falou repetidamente que seu trabalho não era arte. "Será que não dá para a gente, no mínimo, considerar que essas pessoas têm uma outra perspectiva sobre essas criações?", questiona Oliveira.

No livro, ela inclusive escolhe se afastar da ótica da esquizofrenia que domina o debate sobre a obra de Bispo para investigar a relação dos mantos com os folguedos de Sergipe. Nessas festas populares, que carregam a tradição religiosa que foi fundamental para o artista, o processo de fazer as roupas é uma atividade reservada aos homens.

Há também um bordado característico do estado, a renda irlandesa, que não tem avesso e que, segundo Oliveira, permeia toda a obra do artista. "Se você pega um manto dele, um dos primeiros impulsos é virar do avesso. Ele não tem nó, não tem acabamentos."

Pesquisar o que ela chama de "memória de origem" é uma tentativa de não cair na cilada de circunscrever a produção de Bispo a um diagnóstico e também contestar como os trabalhos dele chegam aos museus.

Ela lembra o relato de um fotógrafo que registrou os trabalhos de Judith Scott —sobre quem Oliveira também lança livro—, que teve um filho internado num hospital psiquiátrico. Ele se questionava se os autores daquelas peças também podiam circular nos corredores dos museus onde elas eram expostas.

Diana Kolker, organizadora da mostra do Itaú Cultural, diz que, toda vez que se depara com a discussão sobre como apresentar Bispo nesse regime formal da arte, tenta se afastar de um lugar de autoridade que rotula o que ele fez em vida. Afinal, o próprio artista não quis isso para o seu trabalho.

Ela afirma que o melhor caminho é tentar pensar como o próprio Arthur Bispo do Rosario, descosturando uniformes, lençóis, tecidos. "Será que ele não recusou, na verdade, o que se convencionou chamar de arte num pensamento moderno?", pergunta a organizadora. "Talvez ele tenha pegado esse uniforme do hospital psiquiátrico, puxado os fios, desfeito eles e apresentado essa outra coisa. Ele nos faz pensar então não só no que é a arte, mas no que ela pode ser."



Fonte: Folha de São Paulo