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O coronavírus mostra a grande fraqueza de um capitalismo que não pode ser consertado

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Mundo 4maio

Por Richard D. Wolff*


Considere esse absurdo: a política do governo dos EUA em face ao colapso capitalista atual é “retornar a economia ao estado normal pré-coronavírus”. O quê? Nesse sistema “normal”, capitalistas privados maximizaram os lucros ao não produzir testes, máscaras, ventiladores, camas, etc., necessários quando o coronavírus começou. O capitalismo conduzido pelo lucro provou ser extremamente ineficiente em sua resposta ao vírus. A riqueza já perdida com o coronavírus excede bastante o que teria custado para se preparar adequadamente. No capitalismo, uma pequena minoria – empregadores – toma todas as decisões (o que, como, onde produzir e como usar o lucro) tomando conta de toda a produção e distribuição de bens e serviços. A maioria – empregados e suas famílias – devem viver com os resultados das decisões dos empregadores, mas são excluídos do processo de decisão. Por que voltar a esse “normal” antidemocrático? Por que consertar o capitalismo mais uma vez, tendo em vista sua disposição estrutural para colapsos cíclicos e para a necessidade onerosa contínua de ser consertado?

Considere esse absurdo de um outro ângulo. Quando as corporações capitalistas falham, elas frequentemente recorrem à falência. Isso frequentemente significa que o tribunal remove a liderança existente e entrega a empresa a uma liderança diferente. Fora da falência legal, uma empresa capitalista falida pode frequentemente experienciar seus acionistas votando para destituir uma liderança – um conselho diretivo – e substituí-la por outra. Enquanto tais passos reconhecem que os capitalistas de fato fracassam (e bem regularmente), a solução que eles transformaram em lei só muda quem são os empregadores. A falência não questiona ou muda a estrutura capitalista da empresa. Mas por que manter tal “normal” capitalista? Talvez o problema seja a estrutura e não o time executivo em particular liderando a empresa capitalista.

Impressionantes 20 milhões de empregados estadunidenses perderam seus empregos e pediram seguro-desemprego durante o mês anterior a 15 de abril. Isso é um absurdo. Nós, o povo, o público, pagaremos uma porção dos salários e pagamentos que seus empregadores não pagam mais. Os desempregados irão frequentemente se culpar; muitos perderão conexões com suas habilidades, com seu ex-empregador, e com seus colegas de trabalho; muitos vão se preocupar em conseguir empregos antigos de volta; muitos vão pegar dinheiro emprestado (muitas vezes dinheiro demais); todos irão se preocupar com as dívidas amontoadas; etc. Todos estariam bem melhores se tivessem empregos socialmente úteis e seus pagamentos anteriores. O governo poderia ser um empregador em último caso: quando capitalistas privados ou não conseguem ou não querem contratar porque não é lucrativo para eles.

Mas os capitalistas quase sempre se opõem a empregos públicos. Eles temem a competição que pode haver entre emprego estatal e os capitalistas privados. Eles se preocupam que os empregados públicos manterão seus empregos e não voltarão ao mercado de trabalho privado. Para apaziguar os capitalistas privados, os governos “consertam” recessões e depressões – períodos em que capitalistas demitem os funcionários – ao sustentar os desempregados financeiramente por um tempo. A sociedade perde enquanto o povo paga os salários e pagamentos dos trabalhadores, mas não recebe produção de bens e serviços públicos em troca.

O Congresso recentemente aprovou planos de lei (CARES) para estimular o capitalismo estadunidense colapsado, concedendo à grandes companhias aéreas alguns 25 bilhões de dólares para pagar a maioria dos salários e remunerações dos quase 700.000 funcionários para os próximos seis meses. Isso é um absurdo capitalista perfeito. A maioria desses funcionários vai coletar seus pagamentos, mas não vai fazer nenhum trabalho aéreo porque voar continuará sendo muito arriscado para muitos nos próximos seis meses. Alguém pode se perguntar se será exigido que esses funcionários cumpram algum serviço público em troca do pagamento governamental. Eles podem preparar locais de trabalho seguros para a produção de testes, máscaras, ventiladores, luvas, etc. Podem ser treinados para realizarem testes; para limpar e desinfetar locais de trabalho, lojas e arenas atléticas; para ensinar usando tutoriais das redes sociais; e por aí vai. Mas não, em países capitalistas (com raras exceções), capitalistas privados não querem e, com isso, os governos não aprovam leis exigindo que os desempregados atuem em empregos do setor público em troca do seu pagamento. A sociedade perde, mas os capitalistas são tranquilizados.

Também, a Boeing está recebendo um grande resgate. Foi provado recentemente que essa liderança corporativa é responsável por vender aeronaves inseguras que mataram centenas, por tentar esconder suas falhas, e por tirar bilhões do estado de Washington por meio de subsídios públicos. Ainda assim, o resgate do governo mantém os líderes da Boeing (e outros empregadores recebendo resgate do governo) em suas posições tradicionais de tomar todas as decisões importantes da empresa exclusivamente e confidencialmente.

Por que “consertar” o capitalismo com essas maneiras? Por que a irracionalidade do pagamento para o desempregado sem um trabalho social útil para o desempregado? Por que reproduzir um capitalismo normal que organiza de forma tão antidemocrática suas empresas – onde uma minoria de empregadores irresponsáveis dita para uma maioria de empregados? Por que substituir um grupo de empregadores ditadores por outro, quando uma alternativa melhor se apresenta? Em resumo, por que reproduzir o sistema capitalista que gera níveis desiguais de divisão social de renda e riqueza em quase todos os lugares e ainda gera ciclos de negócios regularmente introduzindo instabilidade?

Estamos experienciando o declínio histórico do capitalismo? Essa é a mensagem uma vez que as pessoas cada vez mais consideram o capitalismo desnecessário em seu melhor e insuportável em seu pior? Cooperativas de trabalhadores se apresentam como uma maneira melhor de organizar empresas: indústrias, escritórios, lojas, privados ou público. Como instituições econômicas democráticas, cooperativas se encaixam melhor e apoiam mais as instituições políticas democráticas. Para o século 21, o slogan mais popular dos banners socialistas provavelmente será “Democratize a Empresa”.

No século 14, a peste bubônica – a “Morte Negra” – expôs o feudalismo europeu como amplamente exausto, subnutrido, dividido, doente e desencorajado. As pulgas infectadas carregadas pelos ratos puderam matar um terço de um continente muito vulnerável. O feudalismo europeu nunca recuperou suas forças pré-bubônicas. O renascimento, a reforma, e depois as grandes revoluções inglesa, francesa e americana vieram após. O sistema colapsou em meio a uma transição para um sistema novo e diferente. As interações, agora, entre o capitalismo, o coronavírus, e um socialismo novo baseado em cooperativas podem se provar similares às interações entre o feudalismo, a morte negra e o capitalismo de anos atrás?

 

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares