Sergipe se prepara para novo ciclo econômico, mas esta riqueza precisa chegar ao povo sergipano

 

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Sergipe está diante de uma janela histórica. As projeções econômicas para as próximas décadas são alvissareiras: o retorno das operações da Petrobras, a significativa produção de petróleo e gás, o crescimento da agropecuária e do setor de serviços prometem um boom econômico de  proporções inéditas no estado. Bilhões de reais estão à vista. 

Mas aqui reside o desafio central que esta conjuntura eleitoral de 2026 nos impõe: 70 a 80% da população sergipana é negra e empobrecida. Uma análise qualitativa e quantitativa das desigualdades sociais e raciais nas terras do Serigy nos permite dimensionar o tamanho do  abismo a ser superado. Isso significa que o aquecimento da atividade econômica, por si só, não  impactará automaticamente a vida da maioria da população — a não ser que os agentes políticos eleitos criem as condições institucionais para que isso aconteça. 

É justamente para isso que existe o que chamo de quadrado mágico: a atuação conjunta e articulada de Estado, Mercado, Meio Acadêmico e Sociedade Civil, cada qual dando o seu  melhor e visando integralizar um projeto de desenvolvimento inclusivo, justo e participativo. Sem esse quadrado funcionando, o boom econômico corre o risco de se transformar apenas em mais  concentração de renda, enquanto a fome, a miséria e a violência seguem assolando a vida dos sergipanos. 

 

O papel das OSCs neste momento 

Nos próximos dias 27 e 28 de agosto, estaremos realizando aqui em Aracaju o Ocupa ABONG, dando continuidade à campanha que a Associação Brasileira de ONGs vem implementando em  todos os estados brasileiros. O objetivo desta iniciativa é refletir sobre o papel das Organizações  da Sociedade Civil (OSC) para a sociedade como um todo e a importância desse segmento  influenciar os debates em torno do processo eleitoral. 

Vivemos num momento em que o Brasil — e porque não dizer, o mundo — enfrenta uma  encruzilhada: a crise climática, as desigualdades sociais e raciais, as guerras, as disputas  geopolíticas e a acumulação de riqueza são sintomas que repercutem diretamente no sistema  político de cada país. Nesse contexto, a atuação qualificada das OSC no debate eleitoral não é opção — é uma necessidade democrática. 

A conjuntura eleitoral de 2026 exige que as candidaturas majoritárias — poder executivo federal  e estadual, mais o Senado — e proporcionais — deputados federais e estaduais — apresentem soluções concretas para os problemas que afligem a população, preferencialmente ancoradas  na Constituição Federal vigente. Do contrário, ficamos à mercê de projetos descabidos que  enganam o eleitorado e o conduzem a votar em propostas ilícitas ou inconstitucionais. 

Alguns candidatos, diante da realidade de insegurança em que sobrevivemos hoje, pregam a  pena de morte ou a prisão perpétua como solução, sem atacar a raiz do problema. Que esse tipo  de iniciativa não funciona, já o sabemos pelos tantos exemplos do que ocorre no Rio de Janeiro,  onde a necropolítica — a determinação pelo governo sobre quem morre e quem vive — vigora a  partir de relações corruptas entre facções criminosas e agentes políticos. 

Outro discurso bastante recorrente nos pleitos eleitorais é a propagação da capacidade de  realizar obras ou mobilizar recursos como forma de demonstrar merecimento ao voto. Estejam  essas candidaturas tentando renovar ou adentrar determinado espaço de poder, o argumento é  sempre o mesmo: 'olha o que eu já construí'. 

 

Obras não são políticas públicas 

O pano de fundo dessa disputa é que o objetivo maior do agente que almeja ocupar uma cadeira  na Assembleia, na Câmara, no Senado ou no Executivo — ainda que muitos não tenham clareza  disso — é a implementação de políticas públicas. A morte como solução é uma antipolítica. E  construir e inaugurar obras, seja um posto de saúde, uma ponte ou uma penitenciária, apesar da  sua importância para a economia local, não se traduz automaticamente em política pública. 

Inaugurar uma obra é diferente de promover melhorias reais na qualidade de vida da educação,  da saúde ou da segurança da população. 

O agente político que pleiteia um cargo eletivo precisa ter um bom diagnóstico do problema a ser  resolvido — priorizado pela sua campanha — para não maquiar soluções e vender gato por lebre  ao seu eleitorado. Dado o compromisso que assume, caso eleito, com a vida e a sobrevivência  da população, não pode querer apenas fidelizar o voto para o dia da eleição. Precisa, sobretudo,  comprometer-se a dar condições às pessoas de se emanciparem e de alterarem a sua realidade  e a de suas famílias, comunidades e territórios — numa perspectiva coletiva. 

 

Dignidade não sobrevive à necessidade 

Não custa lembrar: onde predomina a necessidade, a dignidade não tem cadeira e tende sempre a se submeter a ela. É o que ocorre com a captação de votos por meio da compra financeira ou das ameaças que acontecem em muitos territórios espalhados por este Brasil. 

O fortalecimento da democracia passa pela autonomia econômica da população, assim como  pela ampliação do seu capital intelectual, educacional e informacional — para que tenha meios  de escapar das falácias propagadas na disputa de narrativas e possa resistir à recusa das verdades evidentes. 

Precisamos dar o voto a agentes políticos que não reduzam seus projetos a soluções fáceis para  problemas complexos, nem a somas de obras inauguradas. Estas são, inegavelmente, parte da solução — mas não o objetivo-fim da política pública, que é a mudança real na qualidade de vida da população. 

Não custa perguntar: qual o percentual desse boom econômico irá repercutir no cotidiano da população, traduzindo-se em inclusão social, cultural e econômica, com preservação do meio  ambiente e respeito à vida dos sergipanos? 

O sucesso na superação deste desafio histórico requer o compromisso primordial  dos agentes políticos em criar as condições institucionais necessárias para que o quadrado  mágico — formado pelo Estado, Mercado, Meio Acadêmico e Sociedade Civil — atue conjuntamente, dando cada qual o seu melhor. O objetivo é integralizar um projeto de  desenvolvimento inclusivo, justo e participativo — e não o contrário: concentração de renda,  violência, fome e miséria. 

Esse é o compromisso que as OSC devem exigir dos candidatos e candidatas em 2026. E é esse o debate que o Ocupa ABONG vem trazer para as ruas de Aracaju. 

 

Fonte: Mangue Jornalismo (artigo escrito por Carlos Trindade, economista, especialista em Ciência Política, mestre e Doutorando em Sociologia e Ogã de Iansã)

 

 

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